Sete Fontes
Sete Fontes é um pequeno lugar da freguesia de São Martinho das Moitas, localizado na encosta norte da serra de S. Macário (ou serra de Sequeiros como também se designa por aquelas bandas), a pouquíssima distância da aldeia de Sequeiros, de tal forma que, ao longo dos tempos, as duas localidades têm partilhado uma história em grande medida comum, não obstante algumas ocasionais rivalidades e contendas, motivadas nomeadamente por questões de partilha da água, uma vez que Sete Fontes está situada a uma cota superior daquela de Sequeiros e parte da água que é utilizada por ambas as localidades vem precisamente de Sete Fontes (tal como o nome deste lugar sugere).
Existe um elemento que num certo período da história marcou uma diferença entre as aldeias: a relação profunda de Sete Fontes com a extracção do volfrâmio, pela coincidência de neste lugar ter nascido o chamado “Rei do Minério”, Agostinho Gaspar Gralheiro e por muitos dos seus habitantes terem trabalhado na mina existente a pouquíssima distância da localidade. Aliás, parte dos habitantes que hoje ainda habitam este lugar são descendentes de gente que chegou a estas paragens entre os anos 20 e 40 para trabalhar na mina.
A este respeito e com a devida vénia pelo magnífico texto publicado na Gazeta da Beira, deixamos as palavras que Aurora Simões de Matos dedicou a este personagem incontornável das terras do vale do Paiva:
“Agostinho Gaspar nasceu no dia 24 de Novembro de 1900, no lugar de Sete Fontes, da freguesia de S. Martinho das Moitas, no concelho de S. Pedro do Sul. Com seus pais, João Gaspar e Ana Ribeiro, e com suas três irmãs: Emília, Florinda e Rosa, viveu uma infância sem sobressaltos, embora humilde e com fracos recursos económicos. Nos baldios da sua terra, guardava cabras e ovelhas. Acompanhando seu pai no negócio, comprava e vendia gado graúdo. Por todo o Vale do Paiva, eram conhecidos, pai e filho, pela alcunha de «Gralheiro », pelo facto de um seu ascendente, que nesta região viveu nos princípios do século XIX, ser oriundo da Gralheira, povoação situada nos cumes do Montemuro. Essa alcunha viria a ser adoptada por Agostinho Gaspar, como apelido, por volta de 1930, ano a partir do qual passou a usar legalmente o nome de Agostinho Gaspar Gralheiro, em todos os seus registos e documentos.
Com cerca de catorze anos, enquanto guardava o gado, debaixo de uns castanheiros, no lugar de Lubízios, bem perto da aldeia onde vivia, deitou a mão a uma pedra para atirar a uma cabra travessa e sentiu uma estranha sensação de choque. Reparou que era uma pedra diferente das outras: mais negra, mais lisa e brilhante, mais pesada e fria. Não voltaria a esquecer o dia e o local daquele achado que – soube-o mais tarde – era o sinal do primeiro filão de volfrâmio descoberto no concelho de S. Pedro do Sul. O seu espírito rebelde levava-o, por vezes, a incompatibilidades com o progenitor. Assim, aos dezasseis anos, num assomo de independência, aventurou-se a um emprego em Lisboa. Começou a trabalhar num armazém de vinhos. Mas as coisas não lhe correram de feição e, ao fim de alguns meses, regressou a Sete Fontes, regressou às«suas pedras».
Já consciente de si, na completa pujança da vida, num legítimo gesto de emancipação e liberdade, com cerca de dezassete anos, perto da aldeia natal, no lugar de Albotieira, onde por sorte encontrara nova prova de minério, fez o seu primeiro registo. Estávamos em plena Primeira Guerra Mundial. Entre estanho e volfrâmio, ia juntando minério, que armazenava, para vender quando os preços subiam. Como capataz de minas, conviveu com as terras esventradas por todo o Maciço da Gralheira, da Arada à Serra da Freita e em outros locais das entranhas trasmontanas.
O seu talento e sorte na descoberta de filões (veios de minério) eram reconhecidos pelos melhores concessionários. Com o fim da Grande Guerra, os preços do volfrâmio sofreram uma enorme queda. Agostinho Gralheiro tentou de novo a sua sorte, em Lisboa, nos Caminhos de Ferro, onde trabalhou alguns anos. Mas o cordão umbilical deixara-o ele preso nas dobras dos montes da sua terra, agarrado a pedras brilhantes que se estilhaçavam em lembranças e saudades. O minério tinha-se tornado um fascínio, sonho e pesadelo que haveria de perseguir os passos de uma existência de constante esforço, trabalho duro, risco exigente, poder de aventura e fantasia, capacidade e gosto de viver intensamente, uma inquietude a desdobrar-se em contrastes, a desdobrar-se em apetites de altos voos. E uma inteligência e argúcia verdadeiramente notáveis.
Quando o volfrâmio começou de novo a dar lucros, regressou à Serra, para viver uma época áurea. A sua fama foi crescendo. A admiração e o respeito pelo nome « Gralheiro» espalhou-se por uma vasta região e, a par de um muito peculiar sentido de liderança e êxito financeiro, mereceram-lhe o apelido de «Rei do Minério». O alvoroço e euforia, que a procura de minério trouxe a estas paragens, proporcionaram significativa melhoria às difíceis condições de vida de muita gente, que demandava a Serra em pequenos ou grandes grupos, tentando arranjar trabalho e enriquecer em pouco tempo.
Entretanto, principalmente nas décadas de trinta e de quarenta, devido à Guerra Civil de Espanha e à Segunda Guerra Mundial, era grande o interesse internacional por toda esta actividade ligada ao volfrâmio, que contava com agentes de vários países, muito em especial oriundos dos protagonistas da contenda: Inglaterra e Alemanha. Em 1944, já perto do fim da guerra, apercebendo-se da aproximação do declínio nas exportações de volfrâmio, e enquanto poderia usufruir ainda de bastante lucro, vendeu todos os seus interesses nas minas. A elas voltaria mais tarde, por pouco tempo, ainda para satisfazer a paixão pelo minério, que o perseguira toda a vida. Mas a época áurea tinha passado. Em 1945, grato aos santos da sua devoção e em cumprimento de uma promessa, mandou erguer em Lubízios, no local onde encontrara a primeira pedra de volfrâmio, o Cruzeiro da Paz, que é, simultaneamente, um monumento de regozijo pela paz e vitória alcançada pelos Aliados, ao lado de quem estivera desde sempre, através dos seus negócios com os Ingleses.”
Aurora Simões de Matos, Gazeta da Beira, 30 de Julho 2009
Coordenada Geográfica:
40° 54′ 13.35″ N, 8° 3′ 21.25″ W
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